Powered By Blogger

domingo, 26 de dezembro de 2010

A Sombrinha

Era a filha do fazendeiro. Era o filho do peão. Estavam brincando juntos. De novo. A terra quente, seca e rachada como o pés do menino, mas que ainda sim permitia esporádicos ramos de capim corados e vistosos, como as maçãs da menina. Ela vestia vestidinho de algodão, sapatilhas e usava sombrinha preta; mais para brincar que para se proteger do sol ardente. Ele, descalço, com calças azuis e uma camisa suja meio aberta, e meio pequena para o seu tamanho. Chapéu de palha.
"Vê se segura direito essa escada Toinho, se eu cair daqui, sujo meu vestido novo!" "Podexá Sinhá, nunca que eu vô dexa que ocê caia daí!". Ao passo que ela subia um degrau da escada de madeira, sua imaginação parecia subir mil: "Ô Toinho, você já imaginou que podia voar?" "Eu não uai! Gente nçao voa!" "Você que pensa!". E ela pulou. Bem do topo da escada. A sombrinha, ajudou a prolongar sua queda em um milésimo. Seu vestido leve de algodão, subiu, dando a impressão de serem asas. Asas cor-de-rosa.
Ela fechou os olhos. Pensou estar voando mesmo. Não queria ver nada. Tinha medo de sentir medo. E ele, ah! Ele só queria vê-la. Ver seu anjo de asas cor-de-rosa, e cerrava bem os olhos, para que o sol nao atrapalhasse sua visão miraculosa. Ela caiu sobre os dois pés. Era habilidosa. Permaneceu de olhos fechados por mais alguns segundos, para se assegurar de que estava em terra firme. Abriu os olhos quando Toinho parecia tentar dizer alguma coisa. E diria, não fosse a voz da casa grande: "Teresa, o almoço!".
Agiu rápido. "Já vou!". Puxou Toinho pela camisa velha. Subiu na ponta dos pés. Deu-lhe um beijo seco, macio e doce. Durou um segundo. Uma eternidade. Ela ceirava a jasmin. Ele cheirava à terra molhada. Ela saiu correndo com sua maçãs rosadas e um brilho nos olhos pretos, E ele ficou a contemplar seu anjo de asas cor-de-rosa, seu anjo caído no sertão. Indo embora, para volta amanhã.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Cultura de Massa e seus Adornos

Lá está ela. No lugar mais privilegiado da sala de estar. Onisciente, onipresente e onipotente. Sempre proporcionanda emburrecimento em família.
Deus, o que será de nossos cerébros? É como se tivessem armas apontadas diretamente para nossas cabeças, enquanto as grandes coorporações televisivas nos fazem uma lobotomia. Me sinto, a cada minuto, perdendo grama e gramas de massa encefálica. E de paciência!
Criamos parcelas e mais parcelas para levarmos para dentros de nossas casas nada mais, nada menos, que uma incrível e poderosa arma de destruição em massa. Destruição de nossa originalidade, destruição de nossa autenticidade, destruição de nossa autonomia para a consequente aniquilação de nossas idéias. Ah sim. As idéias! Arma poderosa, Aliás, a única que possuimos contra o sistema, e , pela qual, estamos pagando para ser extinta.
Sejamos como os Macacos Sábios japoneses. Não falemos o mal, não ouçamos o mal, não vejamos o mal. Entre outras palavras, sejamos seletivos quanto ao que absorvemos intelectualmente. Pois, como mencionou o sociólogo Theodor Adorno, grande crítico e criador do conceito de Indústria Cultural: "O fato de não serem mais do que negócios, basta-lhes como ideologia".
Não condeno o meio de comunicação em massa em si, mas sim, o que ele é capaz em mãos erradas. O que faria Hitler se vivesse na era da informática? Talvez fossemos todos iguais hoje, como um rebanhode raça pura, pastando à vista de nosso querido Führer. Vivendo como ignorantes felizes em nosso mundo de censura.
Não sejamos ingênuos. Consequência semelhante não é tão utópica e distante quanto parece. Ou fazem parecer.

Chocante e exagerado?! Ótimo.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Basta um copo de mar para que se possa navegar...

Helena estava sentada na sala de jantar, fitava seu jardim através da porta-balcão aberta. Sentia a brisa. Prazer. Não sabia em que estava pensando, sabia apenas que admirava. Admirava a brisa, o pendular das folhas, a imprecisão das sombras, o ar de ociosidade. Tinha os olhos vidrados. Admirava, nem piscava.
Balançou a cabeça como se voltasse a si. Parecia, por um momento, que o tempo havia parado. Achou estranho. Reconfortante. Ultimamente tinha a impressão de que o tempo não parava ao menos para dizer "olá". Sabia apenas que ele estava lá, ao mesmo tempo em que lhe escapava por entre os dedos.
Já era noite. Helena havia preparado seu jantar e estava sentada em frente a TV, comendo e assistindo ao jornal, quando apagaram-se as luzes. Assim que se preparou para levantar e buscar algumas velas, manchas brancas esfumaçadas surgiram no breu como se formassem a palavra "olá". Helena logo pensou serem apenas efeitos causados em seus olhos pela mudança brusca de luminosidade. Esfregou os olhos e abriu-os novamente. Desta vez as manchas diziam "Olá, Helena".
Helena paralisou por um segundo. Estava perplexa. Rapidamente puxou as pernas ao encontro do peito, ficando de cócoras no sofá. Fazia muitos anos que nao sentia medo dessa forma. "Não há necessidade de pânico. Isto é apenas um desabafo".
Já não sabia se estava delirando, estava prestes a responder para um alfabeto flutuante em sua sala: "Quem é você? Desabafo?" "Eu sou o Tempo. Estava, aqui, hoje de manhã. Estou sempre aqui. E transcorro sempre na mesma velocidade" "Que quer dizer com isso? Que merda é essa?". Helena mantinha uma voz ligeiramente esganiçada, apesar desentir mais segurança. "Vocês humanos são ingratos. Crescem e ficam burros! Quando crianças, não reclamam de mim. Me aproveitam inteiramente, pois se esquecem que eu existo! E então crescem, compram relógios. Me enquadram. Me qualificam. Como se pudessem me controlar! Ah, Arrogantes! Pensam que a vida é uma porção que pode ser dividida, cujo medidor, sou eu! Eu sirvo apenas para girar o mundo, para dirigir o grande maquinário da história, mas aqueles que costroem os trilhos, ou melhor, aqueles que escrevem a própria história, são vocês! Pense nisso!
Acendem-se as luzes. A TV é ligada. O jornal retorna ao mesmo ponto de quando as luzes se apagaram. O tempo havia parado. Ou será que Helena havia cochilado e sonhado? Não, impossível. Ela se lembraria. Lembraria? Não sabia o que pensar. Não queria pensar. Chega! Aquilo havia sido um conselho. Um conselho único!
Foi ao lavabo. Lavou o rosto. Olhou-se no espelho. Lembrou de toda sua vida até ali. Quanto de seu tempo havia aproveitado realmente? "Preciso de algo forte". Foi até o bar da sala. Abriu um Whiskey que havia ganho de presente. Guardava-o para uma ocasião especial. Ligou o rádio. Tocava seu jazz favorito. Coincidência? Não, um convite. Foi até a varanda, deitou na rede, e ficou a contemplar as estrelas.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Novos Tempos...

Realmente novos tempos. A impressão que fica é que hoje as horas não passam, voam!
Clichês a parte, é a mais pura verdade!
Hoje não se tem mais tempo pra nada. Nem para a arte, nem para o amor, nem para o interesse do coletivo. Tempo é dinheiro mais do que nunca! Ninguém se dá bom dia nas ruas, não paramos mais no meio da tarde para apreciarmos o sabor de um açaí por exemplo, ou mesmo para ver aquele beija flôr na janela...
Afinal, o que significa isso tudo? Será isso o que chamamos de vida digna?
O tempo, ou melhor, a falta dele, acabou com o romantismo de viver. Acabou-se a época do carpe diem. A moda agora é Estress.
Twitter é a febre do momento. Pra quê e-mail? Carta então, nem pensar! Que demora! Queremos algo rápido, prático, à mão e eficiente. Caso contrário, não merece nossa atenção. Somos apenas os coelinhos de Alice correndo contra o tempo. Ao menos se corressemos ao encontro do Chapeleiro Maluco, não ficaria tão preocupada.
Hoje, não temos ao menos a capacidade de "perder tempo" exigindo nosso direito. Melhor manter as coisas como estão. Pra quê de ir contra o sistema? Prefiro cuidar da minha vida que ganho mais...

Precisamos reaprender, voltar ao jardim de infância, colorir papéis, escrever na areia e principalmente REAPRENDER a nos empolgarmos com as coisas da vida. Se as mais simples, porém belas coisas passarem batido aos nossos olhos durante a nossa existência, será como se não tivessemos vivido, pois na velhice, só nos restará a nostalgia.

sábado, 29 de maio de 2010

Arte?

Em praticamente todos os ambientes em nossa volta, podemos encontrar algum tipo de arte, ela faz parte de nossa vida, isso é fato. Mas será que paramos para pensar sua importância, ou o que ela representa?
A arte surge a partir de experiências e sensações, reais ou simbólicas, e nada mais é além de uma capacidade de expressar sentimentos não explicáveis racionalmente. Ela nos faz perceber circunstâncias imperceptíveis no dia-a-dia, nos faz pensar em algo do qual nunca paramos para pensar, ou em que pensamos o tempo todo e não sabemos exteriorizar.
O artista por sua vez, serve como um catalisador de sentimentos e percepções de uma coletividade, ou seja, através da arte ele expressa sentimentos e percepções das quais várias pessoas irão se identificar, ele cria algo que faz a diferença para o coletivo, mesmo que este seja restrito a apenas alguns individuos.
A arte pode não ser TUDO, mas o torna SUPORTÁVEL.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

ínicio...

Começarei com um poema de autoria de Cecília Meireles, com o qual sempre me identifiquei. Espero que apreciem também!

Motivo


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.


Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.